As mulheres na literatura policial

Convidada para uma conversa sobre estereótipos femininos em ficção policial no Porto Alegre Noir (abril de 2018, coordenação Cesar Alcázar e equipe), pensei em como poderia avançar no discurso sobre a desigualdade de gênero.

Fiz algumas reflexões para o diálogo que teria e tive com as escritoras Andrea Nunes e Gabriela Silva. Passado quase um mês do evento, só agora consigo fazer o registro.

Pode ser que, nos últimos tempos, as estatísticas tenham caminhado para outra conclusão, mas, no decorrer das décadas, tem-se valorizado mais a voz masculina para expressar realidade e ficção.

A lista dos premiados com Nobel de literatura é constituída predominantemente por escritores. Aqui cabe um aparte. A primeira mulher a ser premiada com o Nobel foi Selma Lagerlof, em 1909. Era sueca e militante. Trabalhou para emancipação e voto das mulheres, protegeu judeus do nazismo. Era uma pessoa iluminada. Doente, parou de andar aos três anos, tendo recuperado a mobilidade aos quinze, depois da visão de uma ave em um navio (“Todos os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura-1901-2010”, de Lundenbergue Góes, Global, 2010).

Pesquisa coordenada por Regina Decalstagnè na Universidade de Brasília (https://revistacult.uol.com.br/home/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro/) constata a presença majoritária de autores entre as pessoas publicados no Brasil. Movimentos têm surgido para enfrentar essa maior visibilidade da literatura masculina: Mulherio das Letras (www.mulheriodasletras.com.br) e o Leia Mulheres (https:leiamulheres.com.br). Nosso coletivo Literário Martelinho de Ouro, só de mulheres, existe desde 2012 e já publicou livros e fanzines.

Fixado esse ponto no raciocínio, e passando ao tema sugerido para o Porto Alegre Noir, concentrei-me na literatura policial e nos estereótipos femininos.

Primeiro fiquei intrigada com o significado do termo estereótipo e sua importância ou irrelevância no diálogo que teríamos. O tema proposto não era simples. Cheguei à conclusão que estereótipo seria como rótulo, padrão, modelo. E esse termo seria aplicável às personagens, já que seria difícil, impossível mesmo, encontrar estereótipos para as escritoras.

A pergunta também poderia ser: como são as personagens femininas na ficção policial? Há mulheres detetives?

Há muitas mulheres detetives na ficção policial. Kay Scarpetta, de Patricia Cornwell. Miss Marple, de Agatha Christie, Preciosa Ramotswe, de Alexander Mcall Smith, todas lembradas no blog listasliterarias.com , entre elas a maravilhosa Lisbeth Salander (https://bit.ly/2riZC4b).

As personagens femininas detetives são admiradas pelo público, têm lugar preferencial na literatura de suspense, quer apareçam como detetives, vítimas, cúmplices e assassinas. Sem elas as histórias não têm graça. O literaturapolicial.com tem divulgado constantemente a escrita policial de autoria feminina. Aqui está um dos vídeos protagonizado por Ana Paula Laux: https://bit.ly/2JJcnvF.

No Porto Alegre Noir, festival de livros e filmes, assisti a “The Outfit” e “In a Lonely Place” (dirigido por Nicholas Ray). A ficção policial pode ser transportada para a tela e o cinema só a completa. Em “In a Lonely Place”, baseado em romance escrito por uma mulher, Dorothy B. Hughes, o casal protagonista vive situação de confiança/desconfiança, dominação/sujeição. Não é importante saber quem matou, mas se aquele amor que o casal experimenta superará o impasse causado pela eventual falta de lealdade.

Em “The Outfit”, dirigido por John Flynn, há muitos tiros, vingança, mas também mulheres elegantes e misteriosas que aparecem e desaparecem, instigando violência e, também, suavizando os conflitos. Há ambiguidade nas personagens.

Depois de algumas semanas do Porto Alegre Noir, finalmente chego ao ponto de escrever um pouco sobre os estereótipos femininos na ficção policial para concluir, provisoriamente, que não são identificáveis. A fêmea fatal nunca é só fêmea fatal. A detetive pode ser solitária, só que os detetives, com exceção talvez de Maigret, também o são.

A ficção policial retrata a realidade. Não é reportagem policial, embora haja pontos de contato entre os estilos narrativos. Edgar Allan Poe mostrou a influência do relato jornalístico na narrativa da investigação em “Os crimes da Rua Morgue”. Seu detetive, Auguste Dupin, usa as matérias jornalísticas para raciocinar e encontrar o culpado. Por outro lado, há quem acompanhe reportagens policiais de crimes reais como lê um folhetim, um romance em pedaços.

Os romances policiais são complexos como a vida e não é possível encontrar estereótipos para suas personagens.

A ideia de que personagens femininas poderiam ser estereotipadas remete à possibilidade de sua criação por escritores apegados a uma concepção masculina da sociedade. Ou será que autoras mulheres também estariam impregnadas de uma concepção da sociedade controlada pelo ponto de vista masculino? Essa é uma questão de resposta difícil. Eu, pensando com simplicidade, acho que não. As mulheres que escrevem romances policiais aventuram-se em um mundo perigoso, de violência e crime, e não criariam personagens femininas caricaturais.

O ideal seria que leitoras e leitores não se importassem com o gênero da pessoa que escreve que, aliás, não se reduz ao feminino e ao masculino. Eu tenho a impressão de que quem lê romance policial por paixão não se importa.

Sobre Paula Bajer Fernandes

Sou escritora e moro em São Paulo. Além de livros publicados (na área jurídica e romances), além de contos, tenho dois blogs: Lolita e Nove tiros em Che Lidu. Criei o blog Lolita em 2009 para falar de imagens, lugares e escritos (http://lolitaimaginario.com). O blog Nove tiros em Chef Lidu (cheflidu.com) é um espaço sobre processos criativos e novelas policiais. Todo livro tem um outro lado, como as cenas que não entraram em um filme e ficam no DVD, entrevistas com atores e o diretor. Senti vontade de prosseguir um pouco no romance Nove tiros em Chef Lidu e aproveitei o lançamento em formato digital para começar o blog. O blog continuou. Sou autora de Viagem sentimental ao Japão (Rio de Janeiro, Apicuri, 2013), Asfalto (livro de contos em formato digital), Nove tiros em Chef Lidu (Editora Circuito, 2014 e e-galáxia, e-book) e Feliz aniversário, Sílvia (Editora Patuá, 2017). Em abril de 2016 publiquei o fanzine O mergulho, com textos e fotos minhas e direção de arte e ilustrações de Rodrigo Terra. Integro o Coletivo Martelinho de Ouro. Participei de cinco publicações do Martelinho: Achados e perdidos (RDG, 2013), 50 anos daquele 64, Serendpt (Livrus), publicados também em formato digital. Em novembro de 2015 foi publicado o fanzine Fancine. Sub, livro de contos do Martelinho sobre tudo que pode estar oculto, foi publicado pela Patuá no fim de 2016. A Editora Patuá publicou, no fim de 2017, Eu não sou aqui, do Martelinho. Tenho dois contos no livro.
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