O processo criminal de Euclides da Cunha, vítima de homicídio

Outro dia descobri um livro com o processo criminal correspondente à morte de Euclides da Cunha por Dilermando Cândido de Assis (“Euclides da Cunha: autos do processo sobre sua morte”).

Euclides foi assassinado e o júri concluiu que Dilermando agiu em legítima defesa. Deve ter sido, já que Euclides foi armado à casa do rapaz que namorava sua companheira.

Um dos maiores escritores do Brasil transformou-se em personagem principal de uma trama jurídica e passional. Euclides da Cunha era um grande pesquisador do Brasil e foi engolido por conflitos familiares de intensidade máxima. Teve um fim menos heróico e mais humano.

Os depoimentos do processo esfriaram o drama em que a família de Euclides vivia: a paixão e o relacionamento ao mesmo tempo assumido e consistente de D. Saninha com Dilermando, absolvido.

De tudo ficaram gritos, tiros e o corpo de Euclides da Cunha, o corpo de delito. Também ficaram vivos “Os sertões”, o jornalismo, a observação atenta e apaixonada de um engenheiro que ia longe para ver e contar um Brasil desconhecido. Se não fosse um homem delirante – não sei bem se essa é a palavra-, Euclides da Cunha não teria escrito uma obra que se reescreve a cada momento, a cada leitura.


Publicado em Sem categoria | Marcado com | Deixe um comentário

Sou vegana

Não como mais carne, nem de peixe. Resolvi também não comer queijos e ovos. Leite já não tomava.

Aí virei vegana.

Alguns acharam minha atitude radical, eu poderia ter me tornado vegetariana. O meio termo não me interessa. O leite é mais pesado que a carne, eu acho.

Foi assim até nas festas de fim de ano e nos dias seguintes acordei leve e sem aquela sensação de que estava intoxicada de glicose. Agora só goiabada, doce de abóbora.

Fui ver o que tinha acontecido com Chef Lidu. Descobri que ele não era um autêntico vegano, como eu pensava. Ele admitia comer formigas, insetos. E um vegano não come nada de origem animal, nem mesmo mel.

Explicaram-me um dia que a opção pelo veganismo é uma opção política e ética. Nao pensei nada disso quando parei de comer carne e tudo o mais. Pensei em ficar mais leve, em me sentir melhor e em ter menos alternativas para lanches em aeroportos, eu viajava bastante e comia brigadeiros e mais guloseimas em esperas ansiosas.

Agora às vezes tenho vontade de um sushi, mas passa logo.

Não tenho vontade de comer formigas e gostaria que Chef Lidu tivesse sido um vegano mais coerente. Mas agora o livro está escrito e ele foi assassinado, o Chef Lidu. De qualquer modo ele não era obsessivo: podia comer formigas e criar sua própria concepção alimentar.

Mas poderia ser chamado de vegano? Acho que não.

E por que eu não como ovo? Não sabia dizer. O ovo é tão bonito.

Hoje li o conto de Clarice Lispector, “O ovo e a galinha”. Entendi a razão.

Descobri que não como ovo antes de não comer carnes porque o ovo é perfeito e não consigo engolir sem culpa.

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , | Deixe um comentário

Receitas de Kay Scarpetta

Para mim sempre pareceu óbvia a ligação entre romances policiais e culinária.

Receitas secretas, combinação de ingredientes, encontros à mesa, venenos na comida, podem fazer parte das histórias de mistério.

Nove tiros em Chef Lidu foi escrito nesse contexto gastronômico. Comer e morrer são intensidades da vida.

Estava eu hoje na internet e descobri que Patricia Cornwell escreveu dois livros sobre preferências alimentares de Kay Scarpetta e amigos. Kay é uma de minhas detetives (ela é médica legista) prediletas.

Aqui estão as imagens dos livros:

Achei legal Patricia Cornwell ter se preocupado com as receitas de Kay a ponto de dedicar a elas dois livros que não são de mistério.

Depois de escrever muitos e muitos policiais ela sabe que as descrições culinárias despertam cheiros e sensações que transportam o leitor para o ambiente da história. E então ele passa a viver, de verdade, no mundo paralelo da ficção. É muito maravilhoso conseguir criar esse outro mundo.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Romance Luminoso

LOLITA

dt855h9rwd6hxjb8hasflr068107785033036466117.jpg

Terminei de ler “Romance luminoso” (Companhia das Letras), de Mario Levrero, escritor uruguaio.

Um pouco mais da metade do livro é seu diário. Ele descreve a rotina de quem precisa escrever um romance porque ganhou uma bolsa para isso. Mas ele se dispersa, é viciado em programas de computador e romances policiais que encontra em sebos e bancas, tem uma companheira que o visita e com quem passeia, alguns problemas de saúde e uma médica com quem foi casado, alunos em oficina literária e, com tudo isso, não consegue escrever nada além do diário.

Fico encantada por esse apego aos romances policiais. Ele gosta dos mais antigos e brinca que não leu Agatha Christie. A certa altura, diz: “Assim funcionam os vícios, e a pessoa chega a sofrer grandes humilhações por necessidade da droga. Já sei que um dia vou acabar lendo Agatha Christie”.
Ele gosta desses autores: John D…

Ver o post original 426 mais palavras

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Falei em uma entrevista para o blog de José Nunes

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

As mulheres na literatura policial

Convidada para uma conversa sobre estereótipos femininos em ficção policial no Porto Alegre Noir (abril de 2018, coordenação Cesar Alcázar e equipe), pensei em como poderia avançar no discurso sobre a desigualdade de gênero.

Fiz algumas reflexões para o diálogo que teria e tive com as escritoras Andrea Nunes e Gabriela Silva. Passado quase um mês do evento, só agora consigo fazer o registro.

Pode ser que, nos últimos tempos, as estatísticas tenham caminhado para outra conclusão, mas, no decorrer das décadas, tem-se valorizado mais a voz masculina para expressar realidade e ficção.

A lista dos premiados com Nobel de literatura é constituída predominantemente por escritores. Aqui cabe um aparte. A primeira mulher a ser premiada com o Nobel foi Selma Lagerlof, em 1909. Era sueca e militante. Trabalhou para emancipação e voto das mulheres, protegeu judeus do nazismo. Era uma pessoa iluminada. Doente, parou de andar aos três anos, tendo recuperado a mobilidade aos quinze, depois da visão de uma ave em um navio (“Todos os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura-1901-2010”, de Lundenbergue Góes, Global, 2010).

Pesquisa coordenada por Regina Decalstagnè na Universidade de Brasília (https://revistacult.uol.com.br/home/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro/) constata a presença majoritária de autores entre as pessoas publicados no Brasil. Movimentos têm surgido para enfrentar essa maior visibilidade da literatura masculina: Mulherio das Letras (www.mulheriodasletras.com.br) e o Leia Mulheres (https:leiamulheres.com.br). Nosso coletivo Literário Martelinho de Ouro, só de mulheres, existe desde 2012 e já publicou livros e fanzines.

Fixado esse ponto no raciocínio, e passando ao tema sugerido para o Porto Alegre Noir, concentrei-me na literatura policial e nos estereótipos femininos.

Primeiro fiquei intrigada com o significado do termo estereótipo e sua importância ou irrelevância no diálogo que teríamos. O tema proposto não era simples. Cheguei à conclusão que estereótipo seria como rótulo, padrão, modelo. E esse termo seria aplicável às personagens, já que seria difícil, impossível mesmo, encontrar estereótipos para as escritoras.

A pergunta também poderia ser: como são as personagens femininas na ficção policial? Há mulheres detetives?

Há muitas mulheres detetives na ficção policial. Kay Scarpetta, de Patricia Cornwell. Miss Marple, de Agatha Christie, Preciosa Ramotswe, de Alexander Mcall Smith, todas lembradas no blog listasliterarias.com , entre elas a maravilhosa Lisbeth Salander (https://bit.ly/2riZC4b).

As personagens femininas detetives são admiradas pelo público, têm lugar preferencial na literatura de suspense, quer apareçam como detetives, vítimas, cúmplices e assassinas. Sem elas as histórias não têm graça. O literaturapolicial.com tem divulgado constantemente a escrita policial de autoria feminina. Aqui está um dos vídeos protagonizado por Ana Paula Laux: https://bit.ly/2JJcnvF.

No Porto Alegre Noir, festival de livros e filmes, assisti a “The Outfit” e “In a Lonely Place” (dirigido por Nicholas Ray). A ficção policial pode ser transportada para a tela e o cinema só a completa. Em “In a Lonely Place”, baseado em romance escrito por uma mulher, Dorothy B. Hughes, o casal protagonista vive situação de confiança/desconfiança, dominação/sujeição. Não é importante saber quem matou, mas se aquele amor que o casal experimenta superará o impasse causado pela eventual falta de lealdade.

Em “The Outfit”, dirigido por John Flynn, há muitos tiros, vingança, mas também mulheres elegantes e misteriosas que aparecem e desaparecem, instigando violência e, também, suavizando os conflitos. Há ambiguidade nas personagens.

Depois de algumas semanas do Porto Alegre Noir, finalmente chego ao ponto de escrever um pouco sobre os estereótipos femininos na ficção policial para concluir, provisoriamente, que não são identificáveis. A fêmea fatal nunca é só fêmea fatal. A detetive pode ser solitária, só que os detetives, com exceção talvez de Maigret, também o são.

A ficção policial retrata a realidade. Não é reportagem policial, embora haja pontos de contato entre os estilos narrativos. Edgar Allan Poe mostrou a influência do relato jornalístico na narrativa da investigação em “Os crimes da Rua Morgue”. Seu detetive, Auguste Dupin, usa as matérias jornalísticas para raciocinar e encontrar o culpado. Por outro lado, há quem acompanhe reportagens policiais de crimes reais como lê um folhetim, um romance em pedaços.

Os romances policiais são complexos como a vida e não é possível encontrar estereótipos para suas personagens.

A ideia de que personagens femininas poderiam ser estereotipadas remete à possibilidade de sua criação por escritores apegados a uma concepção masculina da sociedade. Ou será que autoras mulheres também estariam impregnadas de uma concepção da sociedade controlada pelo ponto de vista masculino? Essa é uma questão de resposta difícil. Eu, pensando com simplicidade, acho que não. As mulheres que escrevem romances policiais aventuram-se em um mundo perigoso, de violência e crime, e não criariam personagens femininas caricaturais.

O ideal seria que leitoras e leitores não se importassem com o gênero da pessoa que escreve que, aliás, não se reduz ao feminino e ao masculino. Eu tenho a impressão de que quem lê romance policial por paixão não se importa.

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , , | 1 Comentário

Porto Alegre Noir coloca o Brasil no mapa dos festivais policiais

Esta galeria contém 54 fotos.

Publicado originalmente em Literatura Policial:
Por Rogério Christofoletti – Quantos eventos dedicados à literatura de crime existem no país? Quais os mais importantes? Até a semana passada, não havia respostas para essas perguntas, mas uma modesta e bem organizada iniciativa…

Galeria | Deixe um comentário