Texto de Luiz Renato Souza Pinto sobre “Um enterro para Suzana”

Mais um caso de polícia

Luiz Renato Souza Pinto

Meu primeiro contato com Paula Bajer se deu com “Nove tiros em Chef Lidu”, romance policial em que a escritora alia conhecimentos da área criminal com a expertise literária.

Depois veio “viagem sentimental ao Japão” e agora “Um enterro para Suzana”, este, coletânea de contos. Dezessete deles reunidos em forma de livro, formato inusitado que tem dimensões que o aproximam de revistas e cuja capa traz, além de uma ilustração que remete ao conto homônimo, uma linguagem de semanário temático, uma vez que cada chamada de texto é um bloco de texto que remete a um conto específico – no caso, a seis deles.


“O marido desaparecido”, “70 Anos”, “Rosa”, “Jonas em Islamabad”, “A carta de Glória” e “Syntroid” são os escolhidos. A capa tem o fundo vermelho, como a representação de sangue que escorre de cada história. O marido desaparecido não é um conto, mas faz referência ao título inicial, o que dá nome à antologia. Para facilitar meu raciocínio e condução dos comentários, chamo em meu auxílio a Ricardo Piglia que, com seu “Formas Breves” me auxilia na compreensão dos processos.


Um dos fios condutores é, sem dúvida, a reflexão sobre relacionamentos amorosos e como a finitude das relações reveste ora de enigmas, ora de certezas o universo amoroso dos arquétipos envolvidos. Não me interessa contrapor correntes freudianas e junguianas nesta exegese, por isso o escopo de Piglia para que não me perca em delírios analíticos superficiais. Em “Os sujeitos trágicos (literatura e psicanálise)”, capítulo sete do livro, o argentino trabalha com a ideia de que Joyce percebeu que havia aí modos de narrar e que (…) o sistema de relações que definem a trama não deve obedecer a uma lógica linear; e que dados e cenas remotas ressoam na superfície do relato e se enlaçam secretamente. O chamado monólogo interior é a voz mais visível de um modo de narrar que percorre todo o livro: associações inesperadas, jogos de palavras, condensações incompreensíveis, evocações oníricas.

Assim, Joyce utilizou a psicanálise como ninguém e produziu na literatura, no modo de construir uma história, uma revolução que não tem mais volta (PIGLIA, 2004, p. 54).
Associações inesperadas e condensações incompreensíveis podem ser destacadas nesse primeiro conto em que Suzana, uma aeromoça que vem morar com Laura Weissman, aparece morta no dia em que a protagonista volta da penitenciária e descobre que seu “homem” já tinha saído dois dias antes. Em qualquer trama policial, um enredo baseado em enigmas, mistérios em forma de clichê e resoluções nas quais o imponderável predomine como solução mágica para a narrativa parece aceitável. Digo isso em função da estrutura clássica do gênero.


Ocorre que a reprodução de um estilo, com algumas variações, não é prerrogativa deste ou daquele gênero. “Joyce disse a Jung que sua filha escrevia a mesma coisa que ele, e Jung lhe respondeu: “Mas onde você nada, ela se afoga”. É a melhor definição que conheço da distinção entre um artista e… outra coisa, que não vou chamar de outro modo que não esse” (idem, p. 56). Sigo então as teses de Piglia para ilustrar minha leitura deste belo livro editado pela Patuá.
“Primeira tese: um conto conta duas histórias” (p. 89). Rosa era uma mulher que não saía de casa. Sua vizinha (a narradora) era uma mulher atenta aos movimentos da vizinhança. Ambos os vizinhos não lhe pareciam confiáveis. O do lado direito é do tipo que não ouve nada, não vê nada, não fala nada; o do esquerdo é o marido de Rosa, provavelmente infrator que maltrata a esposa. E a narradora em meio a esses dois mundos, separados pelo seu olhar. Ao longo da escrita a empatia feminina vai se revelando como arma cabal para a resolução do “causo” – uma segunda história.


A essa maneira de deixar implícita uma situação que não precisa ser verbalizada para aparecer no discurso, Piglia parece enxergar como “Um relato visível [que] esconde um relato secreto, narrado de um modo elíptico e fragmentário” (idem, p.90).

O leitor vai sendo envolvido pelo amparo que a narradora presta à memória da vizinha, por ser mulher, pela sede de justiça, até mesmo pela curiosidade de vizinha. “Os elementos essenciais de um conto têm dupla função e são empregados de maneira diferente em cada uma das duas histórias. Os pontos de interseção são o fundamento da construção” (p. 90).


Em “A cara de Glória”, uma moça de infinita beleza, leitora de obras censuradas pela ditadura e que ia para a faculdade de ônibus, preocupa-se com a figura de uma pessoa que parece uma sombra a lhe perseguir. Na chamada de capa a edição já destaca o perfil da garota: “em 75, Glória lia ´Rasga coração´, ´Zero´, ouvia ´O que será que será´. Um homem de barba entrou no ônibus e ela segurou com força a pasta em que guardava a carta secreta”.


O perfil da protagonista ocupa as manchetes da publicação. 1975 é um ano de intensa perseguição política. E a segunda tese de Piglia nos parece exemplar para comentar o texto: “a história secreta é a chave da forma do conto e de suas narrativas” (p. 91). O homem de barba é enganado por ela, desce no ponto da faculdade e ela segue até o seguinte, depois volta a pé e é surpreendida por ele que, provavelmente, conhecia bem sua rotina:

Chegando à escola, Glória viu o homem barbudo, de pé. Gelou e, em vez de virar de costas, disfarçar, correr, continuou, firme. (…) Entrou na faculdade, passou pelo homem, segurando a pasta contra o peito. Esperava uma segunda chance. E ouviu aquela voz: – Senhorita, queira me acompanhar, por favor (BAJER, 2019, p. 42).

Para Piglia, “O conto é um tratado sobre a economia da arte” (Piglia, idem, p. 98). E “Syntroid” leva esse pensamento ao extremo. O conto mais curto do livro tem apenas um parágrafo e trata de depoimento de uma mulher que toma esse medicamento todas as manhãs, e lê Moby Dick. O remédio é usado para casos de hipotireoidismo, doença que, entre outras consequências traz a de ganho de peso e acresce a dificuldade da perda do excesso.


Um viúvo chama seus dois filhos médicos para uma conversa sobre a venda da casa e partilha do espólio; e indaga qual dos dois ficaria com o cachorro, ao que nenhum parece responder. A narrativa vai se desdobrando de maneira surpreendente, até pela revelação que o pai faz. Vai voltar para sua cidadezinha para ver se encontra seu primeiro amor. Piglia nos diz que: “Os finais são formas de encontrar sentido na experiência” (p. 100). A última frase do conto é: “- Quem fica com o cachorro?” (BAJER, idem, p. 48).


“Jonas em Islamabad” é o último conto destacado na capa. Um repórter de guerra se vê diante de um segredo que não deve ser publicado, informação suficiente para gerar interesse, mas seu editor não parece se interessar. Uma declaração de amor, em meio a uma guerra daquelas. Que valor jornalístico isso teria? “Na experiência renovada dessa revelação que é a forma, a literatura tem, como sempre, muito que nos ensinar sobre a vida” (p. 114).


Paula Bajer mora em São Paulo e suas histórias podem aparecer diariamente nos noticiários policiais, travestidas de elementos que constituem a realidade de pequenas, médias e grandes cidades do Brasil, como de qualquer outro lugar deste planeta.
REFERÊNCIAS
BAJER, Paula. Um enterro para Suzana. São Paulo: Patuá, 2019.
PIGLIA, Ricardo. Formas Breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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O destino maravilhoso dos livros

Uma vez ouvi a poeta Raquel Naveira falar no auditório da Livraria Martins Fontes em São Paulo. Ela falou do destino maravilhoso dos livros.

Ler resenha de Nove tiros em Chef Lidu que está no link indicado ao fim deste post confirmou que os livros seguem sem que o autor sobre eles tenha controle.

Imagino o trajeto do exemplar que alcançou Luiz Renato Souza Pinto e o Cidadão Cultura. O livro foi editado em 2014 e a resenha é escrita em 2019, depois de cinco anos.

Eu me identifiquei com a maneira como Luiz Renato leu a história e comentou o texto e a forma de contar.

Gostei muito de encontrar a imagem da Mona Lisa na resenha.

Penso muito na Mona Lisa.

Mera coincidência

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Listas Literárias lê “Um enterro para Suzana”

http://www.listasliterarias.com/?m=1

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Quem matou o matador?

Hoje estaremos no Sesc Paulista Cláudia Lemes, Marcos Peres, Raphael Montes e eu. Vamos falar sobre literatura policial. Será às 19 horas.

Entendemos bastante do assunto e o encontro será interessante, uma oportunidade pra avançar na escrita, no diálogo com os leitores e amigos e na compreensão sobre a realidade.

E depois o Sesc Paulista é lindo, do último andar a gente vê a Avenida Paulista.

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UM ENTERRO PARA SUZANA

Fonte: UM ENTERRO PARA SUZANA

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O processo criminal de Euclides da Cunha, vítima de homicídio

Outro dia descobri um livro com o processo criminal correspondente à morte de Euclides da Cunha por Dilermando Cândido de Assis (“Euclides da Cunha: autos do processo sobre sua morte”).

Euclides foi assassinado e o júri concluiu que Dilermando agiu em legítima defesa. Deve ter sido, já que Euclides foi armado à casa do rapaz que namorava sua companheira.

Um dos maiores escritores do Brasil transformou-se em personagem principal de uma trama jurídica e passional. Euclides da Cunha era um grande pesquisador do Brasil e foi engolido por conflitos familiares de intensidade máxima. Teve um fim menos heróico e mais humano.

Os depoimentos do processo esfriaram o drama em que a família de Euclides vivia: a paixão e o relacionamento ao mesmo tempo assumido e consistente de D. Saninha com Dilermando, absolvido.

De tudo ficaram gritos, tiros e o corpo de Euclides da Cunha, o corpo de delito. Também ficaram vivos “Os sertões”, o jornalismo, a observação atenta e apaixonada de um engenheiro que ia longe para ver e contar um Brasil desconhecido. Se não fosse um homem delirante – não sei bem se essa é a palavra-, Euclides da Cunha não teria escrito uma obra que se reescreve a cada momento, a cada leitura.


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Sou vegana

Não como mais carne, nem de peixe. Resolvi também não comer queijos e ovos. Leite já não tomava.

Aí virei vegana.

Alguns acharam minha atitude radical, eu poderia ter me tornado vegetariana. O meio termo não me interessa. O leite é mais pesado que a carne, eu acho.

Foi assim até nas festas de fim de ano e nos dias seguintes acordei leve e sem aquela sensação de que estava intoxicada de glicose. Agora só goiabada, doce de abóbora.

Fui ver o que tinha acontecido com Chef Lidu. Descobri que ele não era um autêntico vegano, como eu pensava. Ele admitia comer formigas, insetos. E um vegano não come nada de origem animal, nem mesmo mel.

Explicaram-me um dia que a opção pelo veganismo é uma opção política e ética. Nao pensei nada disso quando parei de comer carne e tudo o mais. Pensei em ficar mais leve, em me sentir melhor e em ter menos alternativas para lanches em aeroportos, eu viajava bastante e comia brigadeiros e mais guloseimas em esperas ansiosas.

Agora às vezes tenho vontade de um sushi, mas passa logo.

Não tenho vontade de comer formigas e gostaria que Chef Lidu tivesse sido um vegano mais coerente. Mas agora o livro está escrito e ele foi assassinado, o Chef Lidu. De qualquer modo ele não era obsessivo: podia comer formigas e criar sua própria concepção alimentar.

Mas poderia ser chamado de vegano? Acho que não.

E por que eu não como ovo? Não sabia dizer. O ovo é tão bonito.

Hoje li o conto de Clarice Lispector, “O ovo e a galinha”. Entendi a razão.

Descobri que não como ovo antes de não comer carnes porque o ovo é perfeito e não consigo engolir sem culpa.

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