O tubarão-tigre e o mergulho

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Acaba de ficar pronto o fanzine “O mergulho”. Escrevi os textos e fiz as fotos e Rodrigo Terra Vargas editou, ilustrou, deu forma.

Escrevi ali uma crônica, ou  conto, ou só um relato de caso. Chama-se O caso do tubarão-tigre.  Pode ser ouvido com uma canção de David Bowie, Life on mars. 

Eu acho que quase toda história é uma narrativa sobre quem fez o quê. Essa indagação é a do romance policial clássico.  Também pensei muito em Moby Dick quando escrevi.

 

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Refletindo sobre o epílogo do romance policial (não tem spoiler)

“Nunca me interessei por palavras cruzadas ou qualquer outro tipo de enigma mas gosto muito de romances policiais. Nunca tento adivinhar quem cometeu o crime e se o fizesse estaria certa de adivinhar erradamente mas gosto do assassinato de alguém e de como ele se desenrola e Dashiell Hammett era grande nisso” (Gertrude Stein, Biografia de todo mundo, Cosac Naify, p. 10).

“Só tendo o epílogo constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de consequência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção” (Edgar Allan Poe, A filosofia da composição, em Poemas e ensaios, Globo, p. 112).

Lendo essas suas falas, eu me pergunto: muitos leitores, durante a leitura,  não estão preocupados em prever quem é o assassino. Eu, por exemplo, não tenho essa preocupação. Leio como G. Stein, gosto de saber como a história vai até o fim e não tento adivinhar. Quero me surpreender. O processo me atrai bastante. E se muitos leitores não se preocupam com isso (é claro que muitos querem saber, o que é legal), por que o autor não pode, também, descobrir o desfecho ao longo da escritura?

É muito difícil, para mim, fazer como Edgar Allan Poe sugere: conhecer o epílogo desde o início.  De certa forma, é inegável que o tom da obra leve a um final coerente, daqueles que, quando acontecem, o leitor pensa: foi a melhor saída.

 

 

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Sobre romances policiais

 

Comecei a ler romances policiais com Agatha Christie. Li quase todos.

“O caso dos dez negrinhos”, que hoje tem o título  “E não sobrou nenhum”, ficou gravado.

Nunca fui muito ligada em Sherlock Holmes. Reconheço todo o valor dos personagens criados por Conan Doyle, principalmente de Watson, mas as histórias não me deixam muito curiosa. Gosto de Allan Poe porque brinca com a linguagem e o raciocínio.

Romance policial tem disso, mesmo, ou o leitor se identifica com os personagens, com o detetive, ou não. E há os preferidos. Li Dashiell Hammett muito mais tarde e foi meio difícil gostar do “Falcão Maltês”, mas hoje gosto muito.

O detetive que mais me encanta, porém, é Marlowe, de Raymond Chandler. Tenho vontade de abraçar Marlowe, de consolá-lo, a vida é tão dura com ele e ele não faz a menor concessão, continua seu descaminho na maior elegância. “O longo adeus” é meu livro preferido de Chandler.

É claro que gosto de Simenon. Dr. Magreza, o delegado de “Nove tiros em Chef Lidu”, é um pouco inspirado nele. Mas Maigret é um cara tão caseiro, vive bem com a mulher, tem sua rotina em Paris, ele em si não é tão interessante e talvez isso seja o peculiar: qual o segredo de Maigret? Acho divertido o jeito como ele encontra as soluções, a verdade meio que cai no colo dele.

Tive minha fase de Kay Scarpetta, a legista de Patricia Cornwell. Gosto dela, de sua sobrinha, do colega de trabalho Marino, do namorado (quando ele aparece). As histórias vão bem até a metade, mas depois começa a acontecer muita coisa, muita violência,  e eu me perco.

Gertrude Stein adorava ler romances policiais, assim como Salinger e Borges. Eles não são autores necessariamente divertidos e liam por prazer. Ler é sobretudo divertir-se, devanear. Se o leitor procura textos difíceis, pode procurar os acadêmicos. E há muitas teorias sobre a novela policial. Recentemente assisti a uma conferência (Casa de Cultura Peruana) no youtube de uma acadêmica espanhola, María  Pizarro. Está aqui:https://www.youtube.com/watch?v=Xv3YmP2E_xg.

Ela diz exatamente o que eu penso: importam as possibilidades de verdade. Ela diz a certa altura que a verdade é negociada. Eu tenho essa curiosidade principal: como a palavra, o texto, o discurso,  podem mostrar a verdade? A verdade existe?

Tem gente que acha que o romance policial é menor, ou menos literário, não sei bem como qualificar. Eu acho meio que o contrário. Para escrever o policial, o autor precisa se desligar de interrogações  suas e ficar na história. Há um problema a ser resolvido tanto pelo escritor como pelo leitor e, principalmente, pelos personagens, sempre muito vivos na novela policial. Os problemas do autor, existenciais, pessoais, não importam, e só há uma condição para serem inseridos no contexto: o disfarce perfeito das motivações.

Um romance policial gira sobre um crime e crime há em todos os tempos e lugares e o homicídio é o mais sério deles, porque a vida é eliminada definitivamente. Mas a vítima está na história em um flash back e geralmente é o modo dela ser e agir que vai solucionar a indagação: quem matou?

Um policial interessante, porque lê-se mesmo sabendo quem é a vítima e quem matou, e até como, é o de Leonardo Padura, “O homem que amava os cachorros”. Trotsky é a vítima sobre quem o leitor quer saber mais. Há uma curiosidade em volta de sua vida privada, seu relacionamento com Frida Kahlo, que mantém o leitor atento, além da curiosidade sobre o assassino, Mercader, uma pessoa totalmente formada pelos conflitos de sua época e que parece ter perdido uma consciência de si mesmo, ou a liberdade de pensar por si, e ainda assim sabe-se que sobrou alguma coisa nele e o leitor quer descobrir o que é.

Em “Nove tiros em Chef Lidu”, meu romance policial,  a vítima é bem importante. Lidu, assassinado com nove tiros,  é um personagem que tem vida, é um Chef de cozinha que muda de gostos e hábitos alimentares e essas mudanças interferem em tudo à sua volta, no relacionamento com as pessoas e na forma como ele administra sua brasserie. O romance pode ser livro de muitas maneiras e já percebi que cada leitor vê, nele, um aspecto diferente. Fiquei bem feliz quando percebi essa diferença nos pontos de vista. O leitor é também o escritor do livro que lê. Mas o que mais me alegra ouvir de um leitor é que se afeiçoou ao Elvis, o narrador.

Eu também adoro o Elvis. Ele está sempre marcado pela pergunta: como o cantor? Acho que as possibilidades de resposta a essa pergunta tão simples sobre seu nome o leva a vislumbrar um futuro estelar.

Encontrei a fotografia de Elvis Presley em um restaurante em Porto Velho, Rondônia. Não resisti e fotografei também. Elvis (não o Presley) não gosta tanto de comer. Agora estou pensando, talvez por isso tenha sido um bom narrador. Esse é só um ponto de vista.

 

 

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Sobre a resenha de “Nove tiros em Chef Lidu” publicada em “Literatura policial”

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Fiquei super feliz de ver e ler a resenha de “Nove tiros em Chef Lidu”, por Raquel de Mattos. Transcrevo um trecho:

“O livro tem uma atmosfera tranquila, engraçada, mesmo com um assassinato no meio. Elvis faz com que tudo pareça meio infantil, ou, para seguir a linha francesa, meio naïf (ingênuo, em francês). Elvis se diz um jornalista frustrado, por isso escreve. Escreve em primeira pessoa e de repente, muda para terceira pessoa. A autora, iniciante no romance policial, tem muita destreza em fazer essas idas e vindas. Na pele de Elvis, ela faz com que tenhamos interesse pela culinária francesa – comida é sempre bem-vinda! Ele se questiona o tempo todo por que o assassino leva o filet mignon e não leva as trufas negras, que combinariam tão bem! Faz com que associemos o sangue do Chef Lidu (que tinha origem italiana, não francesa) com a calda de groselha que ele tem usado em seus pratos atualmente. E habilmente, Elvis faz com que gostemos ou não de um personagem, de acordo com o que ele pensa a respeito desta ou daquela pessoa.

O Elvis é um cara como se costumava chamar “boa-praça”. É educado, divertido, meio bobo, meio desengonçado, meio filhinho-de-mamãe, mas agradável no geral. Fica tenso quando pensa que um dia pode ser o novo delegado, viaja para Paris só para conversar com o Dr. Magreza (depois que ele se aposenta), é um eterno apaixonado, apesar de ter a Rafaela, sua namorada. Enfim, é um encanto!”

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Cheflidu.com entrevista a autora de “Nove tiros em Chef Lidu”

Não foi fácil convencer Paula Bajer Fernandes a dar esta entrevista. Ela me disse que não queria falar sobre seus processos criativos porque não tinha muita certeza deles. Cada dia escreve em um horário, não tem uma rotina fixa. Tudo depende de como ela está, sem tem muito trabalho ou não, se está com algum problema. Nem sempre consegue entrar naquela onda que a leva até o romance. Porque o romance, segundo a autora, é uma realidade. Mas consegui. Em um domingo à tarde, finalmente, ela falou, não sem antes deixar bem claro que não gosta de domingos.

Paula, eu sei que a pergunta é meio óbvia, mas você gosta de escrever?

Nem é tão óbvia, porque para algumas pessoas escrever é uma necessidade tão forte que incomoda e não alivia. Gosto muito, mas estou sempre em conflito com a minha escrita e posso sofrer com isso. Quando leio meus textos, não me reconheço, e isso é um pouco estranho. Meus contos chegam a lugares surpreendentes e, nos romances, às vezes não sei para onde ir e essa falta de rumo me diverte. Gosto de ficar perdida e me encontrar, de mudar destinos dos personagens. Escrevi dois romances, “Viagem sentimental ao Japão” e “Nove tiros em Chef Lidu”. Gosto dos dois, um muito diferente do outro.

Você está escrevendo um novo romance?

Estou. Tenho duas personagens, Sílvia e Sabina. Sílvia é advogada e tem problemas para perder peso. Ela vive de dieta e isso é um pouco cômico, mas ela sofre. É uma advogada criminalista e seus clientes são quase sempre inocentes que se envolveram em alguma confusão. O namorado vai morar fora, tem um cara que gosta dela e ela quer escrever sobre a dieta. Sabina é sua melhor amiga. É uma escritora de sucesso, mas escreve sob pseudônimo. Nem o marido sabe que ela escreve bestsellers. A história gira em torno das duas. Só Sílvia sabe o segredo de Sabina.

Por que você fala sobre alimentação nos seus romances?

Porque comer é uma atividade de sobrevivência e cada pessoa come à sua maneira. Há quem coma muito, quem coma pouco, quem goste de doces, ou de salgados, arroz e feijão, carnes, linguiças. Há vegetarianos, os hábitos vão ao infinito, e isso me interessa. A comida une – mas pode desagregar – e interfere diretamente na saúde e na aparência. Acho que, de certa forma, a maneira como a pessoa se alimenta mostra muito  como ela é. Os programas sobre gastronomia, hoje, na televisão e na internet, são muitos. Master Chef está em muitos lugares, as pessoas ficam ligadas, gostam das competições, das imagens de alimentos. Chef Lidu foi um Chef de cozinha importante e Sílvia, minha nova personagem, sofre com dietas de emagrecimento. As dietas impõem restrições bem chatas às pessoas e quem tendência para engordar e não se conforma em ficar gordo sofre bastante. Chef Lidu começou uma dieta de emagrecimento antes de ser assassinado. Tenho vontade de contar histórias assim.

Já ouvi que você tem uma escrita leve. O que você acha disso?

Sempre quis ser clara e a clareza é a principal qualidade de um texto que leva o leitor ao final da história. Não tenho problema nenhum com leveza, graça, ironia. Há, por outro lado, livros maravilhosos nada leves, que levam ao sofrimento, também. Tudo pode acontecer. Acho que a literatura pode perfeitamente ser entretenimento, o que não significa que não provoque reflexões. A literatura pode salvar uma pessoa da loucura, da depressão. Tira angústias, também. Ou gera angústias. Quando o leitor se identifica, já não se sente só. E depois, além do divertimento, cada leitor conclui, do livro, o que pode e quer. Essa liberdade é absoluta e o escritor não controla o leitor. Por isso gosto tanto de ler e escrever. São caminhos de resultados imprevisíveis.

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Gastronomia em Nove tiros em Chef Lidu: sobre o gigot d’agneau

Gertrude Stein adorava romances policiais e disse que, neles,  o personagem principal era o morto. Não sei se Chef Lidu é o personagem principal de “Nove tiros em Chef Lidu”, mas é importante. Se não fosse, não teria sido assassinado com nove tiros.

Chefe de um restaurante francês, iniciando uma dieta, decide mudar as características do bistrô e tira, do cardápio, o célebre gigot d’agneau. Um cliente fica bem chateado com isso, como se pode ver aqui.

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O cordeiro é um prato tradicional francês. O Brasil tem enorme rebanho de cordeiros, principalmente no Rio Grande do Sul. Eu li em uma antiga Revista Gula que gigot deriva de gigue, giga, instrumento musical com forma de violino, parecida com a forma da peça do cordeiro. Está na revista que o prato fica melhor se preparado com cordeiro de até três meses. Depois dessa idade, o animal já é carneiro ou ovelha. O preparo é bem fácil: temperos e assadeira. Acompanhamentos: feijão branco e molho.

Embora deva ser bastante gostoso, principalmente para quem aprecia carnes, dá para entender por que Chef Lidu tirou o gigot do cardápio.

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Como comecei a escrever “Nove tiros em Chef Lidu”

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Sempre quis escrever um romance policial. A narrativa   gira em torno de quem matou quem. A interrogação fundamenta a novela e a curiosidade leva o leitor chegar à última fase. Um jogo se instaura na leitura e, quando os personagens são instigantes, competem para dar o truco.

Não leio tanto romance policial assim. Li muito Agatha Christie quando mais nova e depois li Patricia Cornwell, autoras de épocas e  estilos  diferentes. Aí me apaixonei pelo “Longo Adeus” de Raymond Chandler, e tive admiração por “O Falcão Maltês” de Dashiell Hammet.  Meu interesse segue pela maneira de narrar e pelo carisma dos personagens.

Também estudo direito processual penal  e  descobrir como se conhece uma verdade é o principal desafio da disciplina. Presto atenção na linguagem dos processos judiciais, completamente diferente da linguagem dos romances. Quis ver se era possível juntar as duas. “Nove tiros em Chef Lidu” é, sob esse ponto de vista, um romance experimental.

O narrador, Elvis, é engraçado, conduzi a história de um jeito meio imprevisível. Ele faz boas perguntas (admiro quem sabe perguntar).  Dr. Magreza, o delegado, pode ser um bom sujeito. E Chef Lidu, que começa a história morto, revela-se muito bacana, também. Chef Lidu gosta de comer (começou uma dieta). Elvis e o Dr. Magreza não ligam para esse hábito tão antigo e necessário.

Dr. Magreza é um personagem que já virou amigo,  surgiu em um romance que nunca publiquei e já teve vários títulos, o último é “A morte da atriz americana”. Ali ele é mais novo,  conhece Elisa, outra personagem de “Nove tiros em Chef Lidu”.

Quando comecei a escrever, imaginei o narrador contando suas impressões sobre a investigação policial ao mesmo tempo em que ela acontecia. Também me inspirei em Norman Mailer quando escreveu “A luta”. Ou em Hunther Thompson. Só que Elvis não é jornalista e muito menos confiável. Ele é um jovem escrivão de polícia, acabou de entrar no serviço público, está cheio de ideias e energia. O jeito de contar a história reflete essa inocência dele. E logo ele relata e dá sua versão, sua opinião, às vezes se coloca na terceira pessoa, comenta os depoimentos que digita para o Dr. Magreza, fala sobre Chef Lidu, o protagonista da história.

Eu gosto bastante desse romance.

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