As fotografias de Alphonse Bertillon

A Revista de Fotografia Zum sempre me surpreende. Nessa de número 13 encontrei as fotografias de um dos primeiros investigadores técnicos da história policial, Alphonse Bertillon. São fotografias chocantes, não posso mostrar aqui. São de pessoas assassinadas no começo do século XX, ou seja, cadáveres. Mas estão coladas em um cartão envolvidas por escalas métricas. Com as fotografias, Bertillon  criou um método científico de investigação policial. Vale transcrever texto de Luce Lebart intitulado “Cenas de um crime”: O método para fotografias métricas de cenas de crimes registra, de modo sintético e global, os elementos materiais do drama: posição do cadáver, localização das eventuais armas, objetos e rastros, ou seja, todos os indícios cuja análise científica formará o embasamento da criminalística moderna (Zum, pp. 156-171, p. 171). Há um termo jurídico que resume esse conjunto de fatos e informações: corpo de delito. Corpo de delito, no homicídio, por exemplo, é o cadáver e tudo o que está em volta dele, como armas, manchas, objetos deixados no local. Bertillon, com seu método de registrar  imagens, contribuiu para o aperfeiçoamento desse conceito técnico de processo penal.

Já escrevi aqui sobre o roubo da Mona Lisa do Louvre, em 1911. E Bertillon, na época Chefe do Departamento de Identidade Judicial da Prefeitura de Paris, foi chamado a investigar. Chegou ao Louvre com lupa, lenço, pincel de pelo de camelo, apetrechos outros, e recolheu impressão digital da moldura que sobrara. Mas nesse caso seu método não chegou à verdade. A polícia francesa teria ignorado um italiano que trabalhava no Louvre e, no dia do crime, chegara atrasado ao museu. Vincenzo Peruggia tinha ficha na polícia. Seu perfil criminal estava nos arquivos de Alphonse Bertillon, constituído de mais de 750 mil registros organizados. Mas Bertillon só tinha impressões digitais do lado direito e a encontrada na moldura era do lado esquerdo. Vincenzo Peruggia tirou a Mona Lisa do Louvre porque queria que ela ficasse na Itália (Obtive essas informações em mais um livro que encontrei sobre a subtração, “Roubaram a Mona Lisa”, de R.A. Scotti, L&PM).

Nesse caso da Mona Lisa Bertillon não foi bem sucedido. Os métodos científicos de descoberta da verdade prometem muito e, na maioria das vezes, são bem úteis. Mas é difícil prever todas as situações e, em última análise, o que conta, principalmente, é a perspicácia de quem liga as informações com racionalidade, mas, também, muita intuição.

Sobre Paula Bajer Fernandes

Sou escritora e moro em São Paulo. Além de livros publicados (na área jurídica e romances), além de contos, tenho dois blogs: Lolita e Nove tiros em Che Lidu. Criei o blog Lolita em 2009 para falar de imagens, lugares e escritos (http://lolitaimaginario.com). O blog Nove tiros em Chef Lidu (cheflidu.com) é um espaço sobre processos criativos e novelas policiais. Todo livro tem um outro lado, como as cenas que não entraram em um filme e ficam no DVD, entrevistas com atores e o diretor. Senti vontade de prosseguir um pouco no romance Nove tiros em Chef Lidu e aproveitei o lançamento em formato digital para começar o blog. O blog continuou. Sou autora de Viagem sentimental ao Japão (Rio de Janeiro, Apicuri, 2013), Asfalto (livro de contos em formato digital), Nove tiros em Chef Lidu (Editora Circuito, 2014 e e-galáxia, e-book) e Feliz aniversário, Sílvia (Editora Patuá, 2017). Em abril de 2016 publiquei o fanzine O mergulho, com textos e fotos minhas e direção de arte e ilustrações de Rodrigo Terra. Integro o Coletivo Martelinho de Ouro. Participei de cinco publicações do Martelinho: Achados e perdidos (RDG, 2013), 50 anos daquele 64, Serendpt (Livrus), publicados também em formato digital. Em novembro de 2015 foi publicado o fanzine Fancine. Sub, livro de contos do Martelinho sobre tudo que pode estar oculto, foi publicado pela Patuá no fim de 2016. A Editora Patuá publicou, no fim de 2017, Eu não sou aqui, do Martelinho. Tenho dois contos no livro.
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