Sobre romances policiais

 

Comecei a ler romances policiais com Agatha Christie. Li quase todos.

“O caso dos dez negrinhos”, que hoje tem o título  “E não sobrou nenhum”, ficou gravado.

Nunca fui muito ligada em Sherlock Holmes. Reconheço todo o valor dos personagens criados por Conan Doyle, principalmente de Watson, mas as histórias não me deixam muito curiosa. Gosto de Allan Poe porque brinca com a linguagem e o raciocínio.

Romance policial tem disso, mesmo, ou o leitor se identifica com os personagens, com o detetive, ou não. E há os preferidos. Li Dashiell Hammett muito mais tarde e foi meio difícil gostar do “Falcão Maltês”, mas hoje gosto muito.

O detetive que mais me encanta, porém, é Marlowe, de Raymond Chandler. Tenho vontade de abraçar Marlowe, de consolá-lo, a vida é tão dura com ele e ele não faz a menor concessão, continua seu descaminho na maior elegância. “O longo adeus” é meu livro preferido de Chandler.

É claro que gosto de Simenon. Dr. Magreza, o delegado de “Nove tiros em Chef Lidu”, é um pouco inspirado nele. Mas Maigret é um cara tão caseiro, vive bem com a mulher, tem sua rotina em Paris, ele em si não é tão interessante e talvez isso seja o peculiar: qual o segredo de Maigret? Acho divertido o jeito como ele encontra as soluções, a verdade meio que cai no colo dele.

Tive minha fase de Kay Scarpetta, a legista de Patricia Cornwell. Gosto dela, de sua sobrinha, do colega de trabalho Marino, do namorado (quando ele aparece). As histórias vão bem até a metade, mas depois começa a acontecer muita coisa, muita violência,  e eu me perco.

Gertrude Stein adorava ler romances policiais, assim como Salinger e Borges. Eles não são autores necessariamente divertidos e liam por prazer. Ler é sobretudo divertir-se, devanear. Se o leitor procura textos difíceis, pode procurar os acadêmicos. E há muitas teorias sobre a novela policial. Recentemente assisti a uma conferência (Casa de Cultura Peruana) no youtube de uma acadêmica espanhola, María  Pizarro. Está aqui:https://www.youtube.com/watch?v=Xv3YmP2E_xg.

Ela diz exatamente o que eu penso: importam as possibilidades de verdade. Ela diz a certa altura que a verdade é negociada. Eu tenho essa curiosidade principal: como a palavra, o texto, o discurso,  podem mostrar a verdade? A verdade existe?

Tem gente que acha que o romance policial é menor, ou menos literário, não sei bem como qualificar. Eu acho meio que o contrário. Para escrever o policial, o autor precisa se desligar de interrogações  suas e ficar na história. Há um problema a ser resolvido tanto pelo escritor como pelo leitor e, principalmente, pelos personagens, sempre muito vivos na novela policial. Os problemas do autor, existenciais, pessoais, não importam, e só há uma condição para serem inseridos no contexto: o disfarce perfeito das motivações.

Um romance policial gira sobre um crime e crime há em todos os tempos e lugares e o homicídio é o mais sério deles, porque a vida é eliminada definitivamente. Mas a vítima está na história em um flash back e geralmente é o modo dela ser e agir que vai solucionar a indagação: quem matou?

Um policial interessante, porque lê-se mesmo sabendo quem é a vítima e quem matou, e até como, é o de Leonardo Padura, “O homem que amava os cachorros”. Trotsky é a vítima sobre quem o leitor quer saber mais. Há uma curiosidade em volta de sua vida privada, seu relacionamento com Frida Kahlo, que mantém o leitor atento, além da curiosidade sobre o assassino, Mercader, uma pessoa totalmente formada pelos conflitos de sua época e que parece ter perdido uma consciência de si mesmo, ou a liberdade de pensar por si, e ainda assim sabe-se que sobrou alguma coisa nele e o leitor quer descobrir o que é.

Em “Nove tiros em Chef Lidu”, meu romance policial,  a vítima é bem importante. Lidu, assassinado com nove tiros,  é um personagem que tem vida, é um Chef de cozinha que muda de gostos e hábitos alimentares e essas mudanças interferem em tudo à sua volta, no relacionamento com as pessoas e na forma como ele administra sua brasserie. O romance pode ser livro de muitas maneiras e já percebi que cada leitor vê, nele, um aspecto diferente. Fiquei bem feliz quando percebi essa diferença nos pontos de vista. O leitor é também o escritor do livro que lê. Mas o que mais me alegra ouvir de um leitor é que se afeiçoou ao Elvis, o narrador.

Eu também adoro o Elvis. Ele está sempre marcado pela pergunta: como o cantor? Acho que as possibilidades de resposta a essa pergunta tão simples sobre seu nome o leva a vislumbrar um futuro estelar.

Encontrei a fotografia de Elvis Presley em um restaurante em Porto Velho, Rondônia. Não resisti e fotografei também. Elvis (não o Presley) não gosta tanto de comer. Agora estou pensando, talvez por isso tenha sido um bom narrador. Esse é só um ponto de vista.

 

 

Sobre Paula Bajer Fernandes

Sou escritora e moro em São Paulo. Além de livros publicados (na área jurídica e romances), além de contos, tenho dois blogs: Lolita e Nove tiros em Che Lidu. Criei o blog Lolita em 2009 para falar de imagens, lugares e escritos (http://lolitaimaginario.com). O blog Nove tiros em Chef Lidu (cheflidu.com) é um espaço sobre processos criativos e novelas policiais. Todo livro tem um outro lado, como as cenas que não entraram em um filme e ficam no DVD, entrevistas com atores e o diretor. Senti vontade de prosseguir um pouco no romance Nove tiros em Chef Lidu e aproveitei o lançamento em formato digital para começar o blog. O blog continuou. Sou autora de Viagem sentimental ao Japão (Rio de Janeiro, Apicuri, 2013), Asfalto (livro de contos em formato digital) e Nove tiros em Chef Lidu (Editora Circuito, 2014 e e-galáxia, e-book). Em abril de 2016 publiquei o fanzine O mergulho, com textos e fotos minhas e direção de arte e ilustrações de Rodrigo Terra. Integro o Coletivo Martelinho de Ouro. Participei de cinco publicações do Martelinho: Achados e perdidos (RDG, 2013), 50 anos daquele 64, Serendpt (Livrus), publicados também em formato digital. Em novembro de 2015 foi publicado o fanzine Fancine. Sub, livro de contos do Martelinho sobre tudo que pode estar oculto, foi publicado pela Patuá no fim de 2016.
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